Humilhado no asfalto

01.04.2017 7:29 Por Vanísia Nery

Por: Marco Aurélio.

(Continuação de “O Cavalo Morto e eu”).

Abri os olhos e não compreendi a cena. Meu irmão e o Mineiro rastejavam pelo porta-malas, Lincoln, o motorista, estava sentado no teto do carro (o carro estava ao contrário) enquanto chorava e pedia desculpas, e vi o Filipe pendurado pelo cinto de segurança, no banco da frente, sem mexer um mísero músculo. – Filipe morreu – pensei. A morte do meu amigo era a única coisa compreensível naquele momento.

O Cavalo Morto é de uma escuridão admirável e não se podia ver muita coisa. A única fonte de luz emanava do pisca-alerta do carro, que piscava na esperança de que alguém nos encontrasse naquele buraco. Conforme a luz amarela aparecia, eu digeria a situação. – Meu Deus, sofremos um acidente e o Filipe morreu! – Como eu disse, o carro estava ao contrário, de pernas para o ar, e eu me vi deitado no teto, rodeado por cacos de vidro. – Isso aqui vai explodir! – Foi o que pensei. Olhei para o meu lado e percebi que a janela estava quebrada. Agarrei-me às bordas da janela e me arrastei para fora, sobre os cacos de vidro.

Estávamos fora do carro.Eu, Lincoln, Mineiro e Gledson. Olhamo-nos e nos lembramos do Filipe, que jazia suspenso pelo cinto de segurança. Meu irmão entra no carro novamente, rastejando sobre os cacos de vidro, e aperta o botãozinho do cinto. Então, ouvi a pancada de quem despenca e um gemido. Filipe não havia morrido e me senti aliviado. Assim como eu, ele somente desmaiou. Quando vi que estávamos vivos, tudo parecia melhor e o carro capotado era um detalhe. Vão-se os anéis e ficam os dedos – não sei por qual razão, mas pensei nisso. Engraçado, pois o carro não era meu, logo, eu não tinha anel para ir embora. Mas tinha dedos.

Ainda zonzo pela pancada, quase caí de cima das minhas pernas quando o pisca-alerta me iluminou e olhei para a minha mão. Eu não merecia ter visto aquilo e preferia continuar desacordado. O pisca acende novamente e vejo minha mão direita com os ossos à mostra. Era possível ver cada ossinho da mão, aviltantemente expostos. Eu já não tinha uma mão direita, pois o que me restou foram ossos, a carne dilacerada e o sangue que escorria como numa bica. Segurei a mão direita com a mão esquerda e pus-me berrar:

– Minha mão vai cair! Minha mão está caindo! Meu Deus, socorro! Minha mão vai cair!

Nunca imaginei ver meus ossos. Todos os ossos da mão, piorou! Eu era apenas desespero. Estava claro como água de rocha que era questão de minutos para que minha mão direita caísse e me deixasse maneta, ali mesmo, num lugar escuro, úmido e abandonado. Chorei de desespero. Não chorei de dor, pois não havia dor. Incrível como eu estava praticamente sem mão e não sentia dor. Compreensível, pois o desespero de me ver sem um pedaço considerável de mim me era suficiente para arrancar até a última lágrima do âmago da minha alma.

Andei de um lado para o outro, sem saber o que fazer, sem saber o que falar, sem conseguir pensar. Eu apenas repetia que minha mão iria cair. Olho para trás e vejo que um rastro de sangue me acompanha. Deus do céu!Fui tomado pela certeza de que um choque hipovolêmico ceifaria minha vida. Era muito sangue. Jamais cogitei ver meu sangue fora de mim e jogado no asfalto, misturado com terra, piche, cacos de vidro e virando pegadas de sapatos. Meu irmão quis intervir e fazer um torniquete no meu punho. Lembram-se que escrevi que tenho talento nato para adquirir uma quantidade enorme de informações aparentemente inúteis? Pois uma me foi útil. Com frequência, eu assistia a documentários de sobrevivência, sem jamais ter pelo menos acampado. Naquele instante uma centelha de memória foi lançada e disse não ao torniquete, pois ele somente deveria ser usado em último e inevitável caso. O torniquete cortaria a circulação sanguínea da mão e a mataria de vez, podendo acumular toxinas junto de si.Foi o que lembrei. Eu queria que minha mão sobrevivesse.

Àquela altura, eu não sabia mais com o que me preocupar: Os ossos à mostra ou o sangue que não parava de me abandonar. Senti sede. Na hora, pareceu-me um sinal de que havia pouco sangue em mim. – Se eu começar a sentir frio, não vai dar nem tempo de me despedir – balbuciei. Não me recordo quem, todavia enrolaram uma camiseta branca na minha mão e a apertaram o suficiente para a hemorragia ser estancada. Contudo, ela não cessava. Enquanto meus amigos ligavam desesperadamente para o resgate, deitei-me no meio da estrada, ofegante, desnorteado, sangrando incontrolavelmente, com uma mão que definhava a cada segundo. Não tive coragem de fitar minha mão novamente e olhava para o céu como quem pede por um milagre. Cada minuto aumentava minha agonia e diminuía minha esperança. Chorando em meio à escuridão somente cessada pela luz amarela que piscava, jogado à própria sorte, deitado sobre a estrada que me mataria, eu estava, definitivamente, humilhado no asfalto.

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