Misericórdia

21.04.2017 7:27 Por Vanísia Nery

Por: Marco Aurélio.

(Continuação de “Humilhado no Asfalto”).

Humilhado no asfalto, eu aguardava a chegada do resgate. Pensei em correr até a cidade – distante cerca de 5 quilômetros – na esperança de um carona até o Pronto Socorro. Todavia, nada pude fazer, pois minhas pernas já não respondiam e apenas tremiam. Fui tomado pelo medo. Medo de perder uma das mãos, medo de morrer, medo de deixar de existir. Levanto do chão, olho a ladeira e sou tomado pela esperança: Dois faróis e uma sirene aprecem. – Serei salvo – pensei. O veículo se aproxima e era a polícia. Não entendi porque a polícia e não os socorristas. Ora, um acidente quase fatal acabara de acontecer e precisávamos de atendimento médico, não de policiais. Lembro-me de pedir para que me levassem para o pronto Socorro e me disseram que a ambulância estava vindo. Eu não queria esperar a ambulância. Minha mão não podia esperar, pois ela cairia em instantes.

Minha mãe e meu irmão mais novo chegaram ao local antes da ambulância. Não me recordo se a polícia chegou antes da minha mãe e meu irmão, ou se meu irmão e minha mãe chegaram primeiro. Bom, não faz diferença, afinal, eu queria o resgate, não queria policiais ou quem quer que seja. Se o Papa aparecesse, seria sumariamente ignorado. Minha mãe foi até o local, certa de que perdera um filho. Em plena madrugada, meu irmão, que estava no acidente, liga para nossa mãe avisando-a do acidente e diz: – Sofremos um acidente no Cavalo Morto. Todos estão bem, mas o Marco… – Era a insinuação cruel e inapelável de que eu morrera. No interregno entre meu desespero e a chegada da ambulância não consigo lembrar-me de muita coisa. As cenas que centelham em minha memória são as já descritas: O amigo morto que não morreu, a mão que cairia, o choque hipovolêmico que me assolaria, a chegada da polícia, a chegada daminha mãe e do meu irmão mais novo. Eu, meus dois irmãos e minha mãe. Minha família estava num buraco de dor, desespero e incerteza.

Enfim, a ambulância aparece e volto a ter esperanças. Prestaram-me os primeiros socorros e imobilizaram minha mão com uma tala, gaze, faixa e esparadrapo. O Sangramento já havia cessado e eu não mais me preocupava em sangrar até a última gota. Tudo parecia bem e a mão coberta escondia de mim o que estava por vir. Como eu disse, não tive mais coragem de olhar para o meu ferimento. Era insuportável olhar os próprios ossos e a carne dilacerada. Eu voltaria a olhar para a minha mão apenas cerca de duas semanas após o acidente, já submetido à primeira cirurgia e que não fora menos traumatizante.

O caminho até o Pronto Socorro foi triste e eterno. Tive a sensação de que nunca chegaríamos até o posto de saúde e permaneceríamos, eu, Filipe, Lucas, meu irmão mais novo, e minha mãe, para sempre naquela ambulância. Eu tentava me acalmar pensando que o pior já passara e que me fariam uma sutura para fechar a ferida. Tentei fazer uma ou duas piadas no caminho, para esquecer o trauma e para tranquilizar minha mãe, que chorava. Já no Pronto Socorro, de maca me levaram até a sala de emergência para examinarem minha mão.

Novamente, senti medo. Eu não me lembrava de pessoas que tivessem entrado naquela sala e saído com vida. Que existem, é óbvio, todavia, não me lembrava delas. Retiraram os curativos, que ainda estavam úmidos, e lavaram minha mão. Não tive coragem de olhar o estrago e fitei para uma das enfermeiras. A expressão dela era clara: Não haveria conserto e eu seria maneta. Procurei não pensar mais sobre aquilo e perguntei ao médico, que não me recordo quem era: – Então, vou para Prudente? – Naquela região, casos mais complexos eram enviados para a cidade de Presidente Prudente, pois conta com bons hospitais. O médico assente, entretanto me adverte que terei que esperar algumas horas para ser transferido e não me disse o motivo. Não precisa, pois eu assistia documentários de sobrevivência, como escrevi anteriormente. Eu deveria ficar em observação pelo risco de hemorragia interna. A violência do acidente poderia desencadear uma fatalíssima hemorragia interna e esta pode levar algum tempo para se manifestar. Caso eu fosse transferido de imediato, poderia ter a vida abreviada durante a viagem – cerca de 70 kms. Fiquei.

Não me recordo se me deram algum calmante, mas eu estava tranquilo e sereno, conversando com todos e mostrando os curativos que fizeram em mim. Fiz piadas e dei risada. Eu dizia que, se me amputassem a mão, era para me colocar uma de robô, que girasse 360º. Tirei uma foto com o Filipe. Curioso que, pela foto, meu estado parecia o mais simples possível: uma mão enfaixada e mais nada, ao passo que Filipe ostentava curativos em sua mão esquerda e um colar cervical. Foi apenas frescura, diriam vocês, se vissem a foto.

Era quase de manhã quando autorizaram minha transferência para a cidade de Presidente Prudente. Lembro-me de ter ido dormindo, apesar de me esforçar para não dormir. – Posso não acordar mais – pensava eu, entre uma cochilada e outra. Chegamos, eu e minha mãe, à Santa Casa de Misericórdia. Misericórdia era tudo o que eu desejava. Sou fichado e levado à sala de espera. Um enfermeiro apregoa meu nome vou só até uma sala demasiadamente branca, espaçosa, bem iluminada, e com cheiro de hospital. Creio que o “cheiro de hospital” emanava daquela sala e contaminava o restante do prédio. Deitaram-me numa cama fixa. Não era uma maca, creio eu. Um dos enfermeiros, munido de uma tesoura, iria retirar os curativos feitos há horas atrás e que grudaram em mim como se fossem minha pele. Toda a dor física que até então eu não sentira, aguardava-me sórdida e pacientemente.

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