K-pop é poder: Como Coreia do Sul investiu em cultura e colhe lucro e prestígio de ídolos como BTS

23.05.2019 14:58 Por videos

Governo apoiou projetos de música e criou até ‘departamento de k-pop’ no Ministério da Cultura. Estilo rende mais de US$ 4,7 bilhões e impulsiona economia, turismo e diplomacia sul-coreana

Atrás dos cabelos coloridos, da mistureba de ritmos e da gritaria em torno de ídolos do k-pop, existe um projeto organizadinho. Os dois shows do BTS em São Paulo nesta semana vão ser tudo na vida de milhares de fãs brasileiros, mas só uma etapa de um longo plano sul-coreano.

Com a expansão global, a indústria musical do país do BTS cresceu 17,9% só em 2018. O k-pop rende mais de US$ 4,7 bilhões ao ano, liderado por empresas privadas, com ações na bolsa e tudo. Mas também é resultado de uma aposta de 20 anos do governo da Coreia do Sul em cultura:

  • Em 1998, para ajudar a espantar a crise asiática do ano anterior, o governo passou a turbinar sua indústria criativa
  • O Ministério da Cultura teve verba reforçada e ganhou setor dedicado à cultura popular, depois apelidado “departamento de k-pop”
  • De uma visão moralista, que tinha até censura de músicas, passou a apoiar a nova música pop com subsídios e promoção de festivais
  • O país passou de 30º a 6º maior mercado de música do mundo de 2007 a 2017 – superando o Brasil. A explosão no ocidente foi em 2012, com o fenômeno “Gangnam style”, de Psy
  • Em 2005, o governo criou fundo de US$ 1 bilhão voltado ao k-pop. Estima-se que só o BTS movimente, direta e indiretamente, US$ 3,7 billhões ao ano na economia do país
  • 1 a cada 13 turistas citou o BTS como motivo de escolher visitar a Coreia do Sul, diz o Instituto Hyundai. O turismo total no país triplicou nos últimos 15 anos
  • A música ajuda até na sensível relação entre as Coreias. Em 2018, uma rara parceria permitiu vários shows de k-pop no Norte. O ditador Kim Jong-Un curtiu
  • O governo incentiva o distrito de Changdong, em Seul, a virar o “bairro do k-pop”: há casas de shows, estúdios, lojas e arena para 20 mil pessoas, prevista para 2021.

K-pop não é bagunça

Uma turma de adolescentes treina coreografias ao som de músicas do BTS no primeiro andar de uma casa no Centro de São Paulo. Logo em cima, fica uma sala cheia de livros de arte e negócios em coreano, um quadro de eventos e uma mesa bagunçada com pastas e relatórios.

As adolescentes se aproveitam do espaço aberto no Centro Cultural Coreano no Brasil (CCCB), inaugurado em 2013. Às sextas, há aulas de k-pop. Mas era uma quarta-feira. Os funcionários explicam que há sempre gente usando o salão livre e amplo do centro para treinar as coreografias.

A sala no 2º andar é de Young Sang Kwon, 50 anos, diretor do centro. Ele é, oficialmente, um diplomata coreano, e comanda uma equipe de oito pessoas. Eles planejam eventos e produzem relatórios, sempre enviados ao Ministério da Cultura da Coreia do Sul, que banca o CCCB.

A criação de centros de cultura em outros países faz parte da tal política lá de 1998. Já são 33 pelo mundo. Claro que o salto econômico da Coreia nos últimos 20 anos ajuda nessa expansão. Mas não se trata de gastar dinheiro que está sobrando. É investimento com retorno.

Em agosto de 2018, a revista “Forbes” noticiou que as ações das três maiores empresas de k-pop subiam, mesmo em um trimestre difícil nas bolsas de Seul. Investidores estavam animados com o sucesso dos grupos de k-pop na América do Norte e do Sul, disse a revista.

A verba total do governo sul-coreano para a cultura em 2019 é de R$ 6,4 bilhões (1,89 trilhão de wons). No Brasil, o orçamento para o setor cultural foi de R$ 1,9 bilhão – valor previsto em 2018, no final da gestão de Michel Temer, antes da extinção do Ministério da Cultura no atual governo.

Apoio grande, mas bem planejado

“A Coreia investe na área cultural, porque achou que era um mercado de futuro, que vai trazer resultado. Nos próximos anos, o mercado cultural vai crescer mais que os de Tecnologia da Informação e de automóveis”, diz Sang Kwon.

Ele explica que apoio não é financiamento total. A maioria de subsídios é para grupos iniciantes ou projetos específicos. Há mais de 3 mil produtoras musicais na Coreia hoje, ele conta. As três grandes empresas do ramo (SM, JYP e YG) já andam muito bem com as próprias pernas.

A turnê do BTS no Brasil, por exemplo, tem verbas 100% privadas. Mesmo assim, os centros ficam de olho em dados e oportunidades escolhidas a dedo para parcerias, Sang Kwon explica. Ele dá o exemplo de apoio um festival de k-pop em um país onde o fenômeno crescia.

“A SM (dona de grupos como Girls’ Generation, SHINee e EXO) estava interessada em fazer um evento na França. Mas o custo seria grande, pois o cachê dos artistas deles são altos. O governo coreano estudou, pesquisou, e viu que havia sim um potencial de ampliar muito o público francês. Então, houve um apoio direto e o evento foi um sucesso”, ele conta.

Pop adolescente, negócio de gente grande

No Brasil, ainda não houve festival de grande porte com financiamento direto do governo coreano. O CCCB promove aqui aulas de dança, de culinária, concursos de k-pop, e apoia shows e eventos menores. Além dos 60 eventos por ano, eles ainda mantêm o governo de lá informado.

“Em um show como o do BTS, nosso papel é de levantar pesquisas, estudos, cobertura de imprensa, e passar os dados de reação do público ao governo da Coreia”, explica Sang Kwon.

Sang Kwon não tem dúvida do impulso do k-pop para seu país natal. Ele cita dados de turismo. Mesmo sendo um destino distante e caro, o número de visitantes brasileiros lá subiu de 4,8 mil em 2003 a 19,7 mil em 2018.

Por Rodrigo Ortega, G1


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